Necropolítica,o desprezo que mata! Elisa Lucinda

Acabou a brincadeira. Partiu-se o espelho do brasileiro cordial e, debaixo das faces lisas de Thor e de Barbie, revelaram-se as feras com as mãos sujas deste sangue, e que nunca se importaram. Quem não se levanta contra o racismo é cúmplice! Seu desprezo permanente por inúmeras vidas acaba em mortes. Por muito tempo achou-se que era coincidência: os meninos carvoeiros do Ninho do Urubu, a tragédia das barragens, as cadeias e senzalas lotadas de pretos. Até agora ninguém ligava uma coisa à outra. O olhar da Casa Grande, mesquinho na sua arrogância, é limitado. Por não conhecer fundamentos da nossa cultura comete terríveis gafes, são mal educados, grosseiros de narizes em pé. Não quero um mundo só de pretos. Sou Mandela. Quero um mundo misturado e igualitário. Meu pai não deixava que só ganhássemos no jogo ou que nele roubássemos. Éramos irmãos! Lutou contra uma pátria desigual e sabia que a violência é produto direto da desigualdade, onde não há paz possível. Te confesso que estou adorando esse momento. Lutei por ele. É hora dos brancos sentirem vergonha por estarem chafurdados e cúmplices numa trama sórdida, homicida e diária. Não é metáfora. A empregada que trabalhou na sua casa, cujo sobrenome você nunca soube, e que não teve futuro sonhado, escolhido, foi vítima do seu racismo. Não tem desculpa. Matemática simples: a nova escravidão tratou de deixar de fora do jogo o povo negro. Tirou dele sua infra estrutura, deixou uma camada finíssima, inexpressiva de proteção como guarda e por qualquer coisa ele é preso, pra ele não tem vaga, não tem emprego, não tem direito, pra ele bala, suspeita, porta fechada, morte na fila do SUS. Isso não é mimimi nem vitimismo. Isso é tragédia e tem atores, gente que faz o papel de preservar a crudelíssima máquina.
Nunca fizemos chacota com a dor do povo judeu e não vamos mais admitir que o façam com a nossa. Não mais passarão tais narrativas. Mudem a prática. Nos multiplicamos. Somos Marielles renascidas. E eu vim dizer: se apresse, pois o seu desprezo nos mata e era pra sermos irmãos!

(copiado do perfil @elisalucinda no Instagram)

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