Seminário discutiu questões democráticas na América Latina

No dia 3 de maio, a Articulação de Mulheres Brasileiras realizou no município de Caucaia, região metropolitana de Fortaleza, o seminário “Questões Democráticas na América Latina”. Este reuniu cerca de 130 mulheres de 18 estados brasileiros e mais três companheiras que compõem a Articulacion Feminista Marcosur, vindas do Peru, Paraguai e Argentina, para discutir a situação política na América Latina, conjuntura e democracias.

Mesmo período em que a Articulação de Mulheres Brasileiras celebra seus 25 anos de existência e luta, o seminário também destacou a importância da auto-organização para fortalecimento da democracia nos países latinos, que vivenciam uma profunda crise política, social e econômica. Muitos desafios estão colados para os movimentos sociais, em especial para as mulheres, não apenas no Brasil, mas em toda América Latina. Segundo uma das coordenadoras da AMB, Natália Mori, “O momento nos demanda, como um movimento anticapitalista, antirracista e antipatriarcal, um olhar para redirecionarmos as nossas estratégias para enfrentarmos o conjunto de forças conservadoras e antidemocráticas que, nos últimos anos, vêm atuando para destruir a nossa ainda frágil democracia”.

Na análise de conjuntura, foi debatido como o contexto tem se manifestado no cotidiano brasileiro e nos demais países. Foi colocado como está ocorrendo um esgaçamento das condições de vida da população e empobrecimento, principalmente, das mulheres, ameaça à existência das mulheres livres, ataques ao que foi conquistado com muita luta, invasão dos territórios indígenas, o racismo e a lesbofobia cada vez mais gritantes, dentre outras questões. A integrante da Rede de Mulheres Negras de Pernambuco, Mônica Oliveira, que compôs a mesa de abertura destacou: “Estar aqui, e ainda, celebrando 25 anos da Articulação de Mulheres Brasileiras, essa coisa da longevidade de uma organização como essa não é algo pequeno, é algo muito significativo e eu acho que a gente precisa se alimentar da força do que significam esses 25 anos. O feminismo nunca esteve tão em pauta no Brasil e a ideia do feminismo negro é fundamental para nós”.

Pensar um evento em meio à conjuntura tão difícil significa também, na visão de muitas, fortalecer a luta feminista contra os setores conservadores. Para a peruana Cecilia Olea, é preciso que foquemos na defesa dos direitos e do seu acesso de forma universal e que é importante celebrar a resistência. A paraguaia, Clyde Soto, avalia que: “O seminário é um levante muito rico sobre o que significa a construção internacional do feminismo e como se liga com as lutas locais, as lutas das mulheres de diversos setores e como é importante conectar à luta nos territórios com o que está passando em nível nacional, internacional e global do feminismo”. A argentina Soledad Perez comenta que espera levar as discussões para os espaços onde atua, em Córdoba e de compartilhar a forma de organização da AMB.

O seminário foi organizado em conjunto entre a coordenação da AMB e o Fórum Cearense de Mulheres, debatendo não apenas a conjuntura política e econômica dos países latino-americanos, mas também dinâmicas de organização do movimento e formas de resistir e atuar. Para Ana Selma da Costa, que fez parte da organização, receber um evento desse tipo é a construção do pertencimento à AMB, das lutas e sonhos em conjunto e as revigora sair com o sentimento de que não estão sozinhas. Essa é a mesma sensação de que a indígena integrante do Fórum Permanente de Manaus, Marinete Almeida aponta ao relatar que a diversidade cultural vista lá faz que ela veja que tem muita gente lutando com ela. Inclusive, um dos pontos discutidos foi que o movimento apoiará a construção da Marcha das Mulheres Indígenas, que acontecerá junto à Marcha das Margaridas, em agosto em Brasília, como parte de sua agenda de lutas e resistências. Para Adriana Odara, do Rio de Janeiro: “Esse momento presencial aqui ajuda a gente, ajuda a fortalecer e a gente perceber que a gente resiste, que a gente está fazendo luta, que a gente não está sozinha. Você está lá no Oiapoque-Chuí, mas tem uma mulher, tem uma AMB lá falando”.

Os desafios frente aos ataques a direitos e ameaças de retrocessos, como a Reforma da Previdência, ao aumento dos femincídios, às mortes maternas, à invasão dos territórios, ao racismo e tantas outras violências que as mulheres vivenciam cotidianamente, são muitos, mas as mulheres seguem na certeza de que existem porque resistem. Como bem destacou a fala de Betânia Ávila, participante da mesa de abertura: “Eu acho que a maior conquista do movimento de mulheres, do movimento feminista, é o movimento. Ser movimento, ser sujeito da história, essa é a conquista. São 25 anos celebrando essa conquista”.

 

Texto por Gabriela Falcão (jornalista e doutora em Sociologia. Integra o Fórum de Mulheres de Pernambuco e Articulação de Mulheres Brasileiras).

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