Margaridas apresentam horizonte para organização dos movimentos sociais brasileiros

Por Fran Ribeiro*

O que a semana de mobilizações do movimento de mulheres indígenas, trabalhadoras do campo, das florestas, das beiras das águas, das cidades provocou vai reverberar por muito tempo ainda na mente e, sobretudo, nos corações de quem pôde vivenciar de perto e de longe a força, a potência organizativa e a sede de luta expressa por elas em Brasília. Os dias 9 a 15 de agosto de 2019 entram para nossa história como a semana de lutas e resistência das mulheres contra o fascismo racista-heteropatricarcal-capitalista, que tem promovido um verdadeiro caos social que atinge especialmente as mulheres.

“E se o lócus de enunciação fosse deslocado para as mulheres indígenas? E se o lugar estrutural de uma mulher indígena fosse o lugar pelo qual esse mundo se organizasse?”, perguntou Inara do Nascimento Tavares, do povo Sateré Mawé, nesse excelente artigo. Tomamos esses questionamentos para perguntar também: e se as mulheres do campo, das águas e das florestas fossem o lugar de organização da nossa sociedade?

A resposta chega até nós em forma de uma Plataforma Política, apresentada pela Marcha das Margaridas com proposições que comprovam que outra forma de organização é possível e que é extremamente necessária. O modelo neoliberalista em curso está se mostrando altamente nocivo, excludente, genocida e que coloca no centro de defesa de seus interesses o lucro, a concentração de renda, as empresas capitalistas que exploram nossos corpos e territórios, o agronegócio, e nunca todo o conjunto da sociedade. E as Margaridas nos guiam a um outro caminho.

A Plataforma representa o olhar, a sabedoria popular, o conhecimento teórico e prático de diversas organizações de mulheres em movimento que estão lutando por direitos em seus territórios, por democracia, por justiça socioambiental, igualdade, por uma educação não sexista e antirracista, pelo fim da violência e por autonomia. Defender a soberania do nosso povo é defender um país com dignidade, com saúde, com reforma agrária, com alimento sem veneno, com distribuição de renda, sem fome e sem miséria.

Em 10 eixos temáticos, a Marcha das Margaridas mostra um caminho que tem sido construído coletivamente com objetivo de tecer novas relações sociais pautadas nos valores da ética, da solidariedade, da reciprocidade, justiça e respeito à natureza, ao mesmo tempo em que denuncia do desmonte do Estado, a exploração sem precedentes dos recursos naturais, a criminalização das mulheres e de suas lutas.

Conheça os eixos:

1 – Por terra, água e agroecologia – eixo que defende a garantia do direito à terra, água e agroecologia para as famílias agricultoras, bem como uma produção alimentar sem veneno, respeitando a vida e o meio ambiente.

2 – Pela autodeterminação dos povos, com soberania alimentar e energética – defende o direito dos povos de escolherem seus destinos com liberdade, a disposição das suas riquezas e seus recursos naturais.

3 – Pela proteção e conservação da sociobiodiversidade e acesso aos bens comuns – defende o resgate, a seleção e a preservação das sementes a serem plantadas, dos saberes e das práticas que dão autonomia à agricultura, sem a dependência do aparato tecnológico usado pelas grandes empresas transnacionais.

4 – Por autonomia econômica, trabalho e renda – para garantir que as mulheres tenham a liberdade de fazer escolhas para a sua vida, como forma de alterar a divisão sexual do trabalho para que o trabalho da mulher e do homem tenham o mesmo valor.

5 – Por previdência e assistência social, pública, universal e solidária – defesa da Seguridade Social, garantida pela Constituição de 1988, como um mecanismo de redistribuição da riqueza produzida pelo trabalho das mulheres.

6 – Por saúde pública e em defesa do SUS –  defesa da Política de Atenção Integral à Saúde da Mulher e da Política Nacional de Saúde Integral das Populações do Campo, da Floresta e das Águas (PNSIPCFA).

7 – Por uma educação não-sexista e antirracista e pelo direito à educação no campo – por uma educação que não reproduza opressões relacionadas ao gênero ou à raça, e pela valorização da educação no campo com seus saberes, costumes e a cultura de cada povo.

8 – Pela autonomia e liberdade das mulheres sobre o seu corpo e a sua sexualidade – pela garantia dos direitos sexuais e reprodutivos, da livre vivência da sexualidade das mulheres, e pela autonomia para escolher relacionar-se com homens e/ou mulheres, sobre ter ou não filhos.

9 – Por uma vida livre de todas as formas de violência, sem racismo e sem sexismo – pelo fim da violência física, violências simbólicas e materiais que as mulheres estão expostas, bem como o combate ao aumento da pobreza e à extrema pobreza rural.

10 – Por democracia com igualdade e fortalecimento da participação política das mulheres – pela construção e defesa de um sistema político democrático e representativo da diversidade da classe trabalhadora brasileira, garantindo a participação plena e efetivas das mulheres em todos os níveis de tomada de decisão na vida econômica e política do país.

Leia aqui a Plataforma Política Marcha das Margaridas 2019.

Nós saudamos as Margaridas e endossamos a Plataforma Política como um caminho a ser defendido por toda classe trabalhadora em defesa da democracia e da liberdade.

 

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*Fran Ribeiro integra SOS Corpo – Instituto Feminista para a Democracia. Este texto faz parte da cobertura colaborativa realizada pela Coletiva de Comunicação da Articulação de Mulheres Brasileiras (AMB), em parceria com Universidade Livre Feminista (ULF) e Blogueiras Feministas, organizada especialmente para cobrir a Marcha das Mulheres Indígenas e Marcha das Margaridas. 

Expediente

Coordenação Geral: Cris Cavalcanti (PE); Texto: Fran Ribeiro (PE), Gabriela Falcão (PE), Carmen Silva (PE); Laura Molinari (RJ), Carolina Coelho (RJ), Raquel Ribeiro (RJ), Angela Freitas (RJ), Rosa Maria Mattos (RJ), Thays Andrade (CE), Milena Argenta (DF) e Priscila Britto (DF); Fotos: Carolina Coelho (RJ), Rayane Noronha (RN) e Fran Ribeiro (PE); Vídeo: Déborah Guaraná (PE), Cris Cavalcanti (PE), Fran Ribeiro (PE), Milena Argenta (DF), Carolina Coelho (RJ) e Raquel Ribeiro (RJ); Edições: Déborah Guaraná (PE) e Coletivo Motim (RN); Diagramação: Déborah Guaraná (PE), Bibi Serpa, Cris Cavalcanti (PE) Sites e Redes Sociais: Cristina Lima (PB), Cris Cavalcanti (PE), Analba Brazão (PE), Emanuela Marinho (PE), Luna Costa (RJ); Produção: Mayra Medeiros (PE) e Masra Abreu (DF);

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