VAMOS MUDAR O PAÍS NAS PRÓXIMAS ELEIÇÕES

Por Angela freitas*

Este foi o apelo mais contundente que saiu da Oficina Autogestionada “Fundamentalismo: a pedra no caminho da nossa liberdade e autonomia”, sob responsabilidade da Articulação de Mulheres Brasileiras. Aconteceu no dia 14 de agosto, no Box 15A, instalado no Pavilhão do Parque da Cidade, mesmo espaço onde estavam acampadas as caravanas de todos os estados, que viajaram a Brasília rumo à Marcha das Margaridas, e onde aconteciam simultaneamente várias outras oficinas. Um barulho ensurdecedor, mas conseguimos trabalhar.

Coordenada por Joluzia Batista (AMB Candanga/ Cfemea) e Liliane Brum (AMB Rio/ Redeh – que infelizmente adoeceu e não pode participar), foram sete falas que formaram um leque de conteúdos.

Começando com Adriana Marins (AMB Rio – Mulher de Axé), que resgatou como, na história da América, colonizadores chegaram para escravizar povos nativos ou trazendo, para as terras a serem dominadas, povos escravizados, o que foi a base do projeto econômico e da expansão territorial. Adriana também localizou aí, a origem do fundamentalismo que corrói nossa cultura: “Ainda hoje meu povo continua sendo a base do Capital; antes, vieram com a lança e a cruz, e hoje vêm com o fuzil e a bíblia”. No Rio de Janeiro, o pretexto do combate às drogas aparece como mais uma “cortina de fumaça” que, a rigor, ignora a falha na Educação para o povo para valorizar a política de descarte de seres humanos.

Carla Batista (Escritora feminista) também se reportou ao processo de colonização, em que ordens religiosas católicas se aliaram ao explorador, para lembrar que hoje as religiões do campo protestante invadiram a cena, mantendo o Cristianismo como ator de um proselitismo que barra processos de construção de conhecimento. E Carla lançou um desafio: “Como construir relações mais democráticas respeitando a religiosidade e a necessidade de transcendência que todas as pessoas têm?”

Rosângela Talib (Católicas pelo Direito de Decidir) pegou o fio desta meada, ressaltando que sua organização pensa a religiosidade aliada à noção de direitos e entendo a religião como alimento da alma: “Para as pessoas que acreditam, a religião traz sentido para suas vidas”. Entretanto elas se tornaram propriedade de homens que se atribuíram o direito de ditar normas de conduta, sem levar em conta que nas religiões podemos apontar o dedo para ninguém, muito menos para dizer: – “Você não pode! você não é! você não deve!”, pois “somente nós sabemos de nós”. Não tem cabimento nos ensinarem valores que não nos dizem respeito. A religião só tem sentido quando espalha amor, e não quando espalha o ódio.

Eunice Guedes (AMB Tocantins/ Conselho Federal de Psicologia) lembrou a perseguição que psicólogos e psicólogas vêm sofrendo com a introdução da ideia da “cura gay”, como se houvesse aí uma doença, um problema a ser solucionado, como quer impor uma gestão conservadora do Conselho Federal de Psicologia. Esta é mais uma manifestação do fundamentalismo (querendo ditar regras morais, ou de comportamento, para todas as pessoas). Eunice lembrou que o Supremo Tribunal Federal saiu em defesa da categoria, ao decidir que ninguém pode contrariar o Código de Ética de uma profissão: “Entraremos na justiça contra o Conselho Federal de Psicologia; lutaremos contra psicólogos fundamentalistas!”

Bia Barbosa (Jornalista da Intervozes), que luta pela democratização da mídia, falou da praga fundamentalista nos meios de comunicação brasileiros e da inconstitucionalidade presente na política de concessões públicas dos canais de rádio e televisão. Nunca foram respeitadas certas regras constitucionais sobre comunicação:

  • tradicionalmente a mídia brasileira está nas mãos de poucas e poderosas famílias (algumas delas de políticos com mandato), que ao longo de décadas exercem sua influência sobre o voto e sobre a política (local e nacional), sem respeito ao princípio da diversidade;
  • nossa mídia foi sendo invadida pelo campo religioso, mesmo que a Constituição reze que o Estado é laico, e que nenhuma religião pode ser eleita como prioritária; o dado não surpreende – mais de 20% da televisão brasileira é exclusivamente religiosa, sendo o espaço repartido entre duas religiões apenas, que muitas vezes usam sua voz para atacar outras religiões (mais uma ilegalidade).

Não há fiscalização. E mais: as decisões sobre as renovações dessas concessões cabem ao Parlamento, onde o campo é minado pelo lobby empresarial e religioso, com suas frentes parlamentares poderosas e aliadas. Transformar esta realidade é um desafio gigante. Há pinceladas mais dramáticas deste quadro. Bia citou os programa policialescos que pregam a cultura da violência: defendem “justiça com as próprias mãos”, que “bandido bom é bandido morto” e a “redução da maioridade penal”, pela voz de âncoras que costumam se candidatar, e recebem ampla votação nas eleições.

Romi Bencke (Pastora Evangélica e “terrivelmente feminista”) – Romi admite que o extremismo religioso esteja dentro da tradição cristã, e que a loucura de ódio que vemos no Brasil tem tido como protagonistas cristãos evangélicos. Lembrou a recente visita de pastores batistas ao Brasil identificando-se como “pastores de Trump”, em missão de fortalecer a aliança da pauta religiosa com a pauta econômica. Guiam-se pelo deus “mercado”, um deus que é antimulher e antireligiões de matriz africana. São representantes que cabem na narrativa neoliberal, quando esta afirma que há gente demais no mundo, admitindo a ideia de eliminar uma parte das pessoas (desde que elejam quem deve ser eliminado). Mas estes não representam a totalidade: existe um meio cristão de resistência antifundamentalista, e que se indigna contra tudo isto. “Não somos antifeministas!”

Genilda (militante que vem do sub-médio do São Francisco/ Oeste do estado de Pernambuco) usou seu tempo de fala para sublinhar o enorme desafio diante das Eleições Municipais de 2020: “Eles estão em nosso município, nas nossas bases quilombolas, indígenas e cristãs. De fato, as pessoas assistem isto pela mídia (mas sabemos que tudo isto não é sobrenatural). Unidas, juntas somos fortes, cada uma em seu estado”.

Nadja (Rio de Janeiro/ Nova Iguaçu) concordou que devemos nos preparar organizadamente para eleger vereadores e fazer a diferença nos municípios. É dela a frase: VAMOS MUDAR O PAÍS NAS PRÓXIMAS ELEIÇÕES. E Romi acrescentou uma dica estratégica: devemos observar, nas cidades onde moramos, se o Conselho de Pastores está se organizando para lançar candidatos, pois é aí que se formam as candidaturas evangélicas para as eleições.

Maura (indígena do povo Arapiuns e integrante do Conselho Indigenista de Tapajós-CITA) falou do preconceito: “muitas vezes tivemos que negar nossas crenças por conta do preconceito que existe contra elas. A Terra nos preparou, nosso pajés nos prepararam, não tenho vergonha de falar embora eles queiram que eu tenha”.

Fatima Monteiro (Rio de Janeiro) lembrou que precisamos dialogar nas comunidades e tocou na questão das redes sociais. Sugeriu a estratégia de não excluir e nem atacar pessoas com ideias retrógradas “no nosso Face”, pois o resultado será que ficaremos “falando para nós mesmas; devemos confrontar essas pessoas na comunidade, na realidade cotidiana, sem atacar, mas através de um diálogo que deixe as pessoas à vontade”.

O tempo foi pouco para tantas intervenções, e algumas falas eram impossíveis de ser ouvidas, dado o barulho, mas foi possível capar a indignação de Elza Santiago (AMB Rio/ paraibana), denunciando a cobrança desumana do dízimo pelas igrejas evangélicas, que não poupa nem mesmo um casal de idosos, doentes (ela com a doença de Alzheimer). De uma representante da FETAG do Piauí veio a sugestão de que nos dirigíssemos ao Senado pressionando para que não aprovem o “absurdo de mandar o filho ‘dele’ para a Embaixada dos Estados Unidos”; e Lídia, da Coordenação Diocesana da Pastoral de Juventude do Maranhão expressou sua crença na juventude, que tudo pode mudar, a começar pelas atitudes.

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*Angela Freitas é comunicadora e integra a Articulação de Mulheres Brasileiras. Este texto faz parte da cobertura colaborativa realizada pela Coletiva de Comunicação da Articulação de Mulheres Brasileiras (AMB), em parceria com Universidade Livre Feminista (ULF), organizada especialmente para cobrir a Marcha das Mulheres Indígenas e Marcha das Margaridas. 

Expediente

Coordenação Geral: Cris Cavalcanti (PE); Texto: Fran Ribeiro (PE), Gabriela Falcão (PE), Carmen Silva (PE); Laura Molinari (RJ), Carolina Coelho (RJ), Raquel Ribeiro (RJ), Angela Freitas (RJ), Rosa Maria Mattos (RJ), Thays Andrade (CE), Milena Argenta (DF) e Priscila Britto (DF); Fotos: Carolina Coelho (RJ), Rayane Noronha (RN) e Fran Ribeiro (PE); Vídeo: Déborah Guaraná (PE), Cris Cavalcanti (PE), Fran Ribeiro (PE), Milena Argenta (DF), Carolina Coelho (RJ) e Raquel Ribeiro (RJ); Edições: Déborah Guaraná (PE) e Coletivo Motim (RN); Diagramação: Déborah Guaraná (PE), Bibi Serpa, Cris Cavalcanti (PE) Sites e Redes Sociais: Cristina Lima (PB), Cris Cavalcanti (PE), Analba Brazão (PE), Emanuela Marinho (PE), Luna Costa (RJ); Produção: Mayra Medeiros (PE) e Masra Abreu (DF);

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